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O futuro é um tecido em branco

Mônica Ximenes - 20/04/2020

Como qualquer pessoa que acompanha o noticiário sabe, a Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia da Covid - 19.  Muitas perdas têm atingido este belo país, famoso por seu povo apreciador da beleza da vida, que expressa esta vocação magistralmente em sua culinária, em sua arte nas mais diversas vertentes e, não menos importante, em seu design de moda.

E como falar de moda em um momento tão pesado, em que só o essencial – a própria vida – parece ser o assunto permitido?  A revista Vogue italiana fez isso com maestria em sua edição de abril, que apresentou, pela primeira vez em sua história, uma capa totalmente em branco.  Por que o branco em momento de luto? Porque, conforme informa o edital, branco simboliza a Paz, pela qual a Itália tanto anseia, e também a renovação, que virá.  Uma página em branco, onde a história poderá ser revista e reescrita; não esquecida, mas renovada.

Em mais de um século de publicação esta foi a primeira vez que a Vogue saiu com uma capa toda em branco

Por essa renovação estamos todos esperando e contamos os dias para a vida ser retomada.  Parece que estamos suspensos no ar – e junto conosco, nossos projetos, afetos, encontros, compromissos... Mas como será esta vida pós-pandemia?  Todos nós, em graus diferentes de profundidade, temos nos perguntado.

E a Moda – já que este é o assunto da coluna – será a mesma?  Há quem, trabalhando na área, acredite que não, que a característica excludente de boa parte desta indústria  não poderá se manter numa sociedade, ou melhor em um mundo globalizado, que clama por solidariedade, já que estamos no mesmo barco.  Na verdade, já estamos observando este movimento: grandes grifes, como a Louis Vuitton, estão utilizando suas fábricas de roupas fabulosas para a confecção de máscaras e uniformes hospitalares e suas infraestruturas produtoras de perfume para a fabricação de álcool em gel.  Atitudes urgentes e necessárias.  E depois?

A História nos mostra que, após uma grande crise, como uma guerra, as pessoas buscam compensações para esquecer os momentos de privação.  Isto, na Moda, nos trouxe o glamour das melindrosas (após a Primeira Guerra) e o New Look da Dior, com suas saias rodadas que exigiam metros e metros de tecido (pós-Segunda Guerra).  Bom, podemos dizer que, de certa forma, estamos enfrentando uma guerra... Mas será  que os excessos prevalecerão?

Uma corrente de especialistas das mais diversas áreas (filosofia, artes, ciência, etc) aposta que não.  Que este momento de reclusão forçada servirá para a sociedade perceber que seu modo de vida, baseado em consumismo desenfreado, está levando a humanidade a uma encruzilhada, que compromete sua própria sobrevivência – e pandemias como esta e suas consequências seriam reflexo disto. Que temos que manter o foco no essencial, como estamos fazendo agora, no auge da crise.

Photo by Wolfgang Hasselmann - Unsplash

Outra linha de pensamento, mais cética ou talvez mais realista, acredita que tudo voltará ao normal.  As pessoas, assim que se virem liberadas do isolamento obrigatório, retomarão suas vidas do ponto em que pararam, e fashions weeks, shoppings, influencers desfilando grifes caríssimas, logo estarão novamente na ordem do dia.

Na verdade, como tudo que diz respeito à complexa existência humana, não há uma resposta única.  Alguns se identificarão com um caminho, outros com a outra opção e muitos buscarão o equilíbrio, a alternativa do meio.

O que não podemos esquecer é que a sociedade é composta de indivíduos, como eu e você.  Somos todos células de um organismo vivo, ou melhor, usando uma linguagem mais adequada à coluna, somos todos artesãos desta imensa trama que compõe a aventura humana na Terra.

E você? Qual o bordado? Qual o ponto? Qual a linha que usará para deixar sua marca – nem que seja através de seu look (ou outfit, para usar um vocabulário mais atual) no tecido da História?

 

Mônica Ximenes é formada em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação em Marketing e professora de Comunicação da Universidade Estácio de Sá.  Apaixonada por moda, artes, livros, bicicleta e sol.


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