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Viver um dia de cada vez

- 25/05/2020

METACONEXÃO

Estar com pessoas inspiradoras

Janice Kunrath

Nos últimos meses, o tema mais discutido entre as populações e os governos de todo mundo é a pandemia da Covid-19 que já causou milhares de mortes e infectou mais de cinco milhões de pessoas.

Além dos  óbitos, o colapso dos sistemas de saúde e reflexos na economia,  a transmissão do vírus tem provocado pânico, ansiedade e medo entre as pessoas que buscam estocar máscaras, álcool em gel e luvas, entre outros itens. Também foi imposto o isolamento social, que obrigou a maioria da população a permanecer em casa - o que mudou de forma radical o cotidiano das pessoas.

No entanto, em meio de todos esses impactos, surgem ações de solidariedade, através da união e ajuda mútua para contribuir com doação de materiais, apoio social e financeiro, gestos e atitudes que transformam a realidade de forma mais amena e segura.

Diante do cenário atual da Covid-19, convidamos o psicólogo clínico Dr. Pedro Vaz, para fazer uma  reflexão sobre os impactos durante e após a pandemia. 

O convívio entre as pessoas já não será como antes - Foto Cassie Galegos/Unsplash

METACONEXÃO - O que considera ser a psicologia da pandemia? Como lidar com o sofrimento emocional associado à proliferação da doença?

DR. PEDRO VAZ - A Psicologia da pandemia ou Psicologia da Crise debruça-se essencialmente sobre a forma como ajudar as pessoas a lidar com a crise, os seus efeitos, tais como ansiedade, dificuldade em relacionar-se com as pessoas, isolamento, depressão, alteração do estado de humor e do sono. A forma como cada pessoa lida com uma pandemia varia de acordo com a sua estrutura de personalidade, com a sua cultura e a forma de como vê a vida.

Quais são os efeitos psicológicos do distanciamento social e de uma quarentena? Como isso impacta a relação familiar? Como é a reação das pessoas em relação à diminuição da liberdade provisória?

P.V. - A humanidade, como a conhecemos, nunca viveu uma situação social tão grave como esta, pelo menos nos últimos 100 anos, desde a gripe espanhola. O isolamento social trará consequências irreversíveis para a humanização, pois os cumprimentos deixarão de ser através de beijos e abraços. Passaremos a nos cumprimentar com uma simples troca de olhares. A relação familiar seguirá os mesmos moldes, obedecendo a estes princípios que, rapidamente, se transformarão em regras básicas, tal como os artigos de uma Constituição. Em relação à liberdade provisória, o homem tem a capacidade de se adaptar às confinações e aos seus efeitos, não se caracterizando em um problema, mas de superar uma situação passageira.

Ficar em casa tem sido o melhor remédio para sair do caminho do vírus - Foto Priscila du Preez/ Unsplash

Com o aumento significativo de informação e da velocidade de como é transmitida pelas redes sociais, de que forma isso influencia o comportamento das pessoas? Quais os efeitos sentidos na relação direitos individuais em relação ao controle por meio de dispositivos tecnológicos?

PV - As redes sociais têm a capacidade de nos manter informados, porém esta capacidade pode ser um presente de grego, quando constatamos fontes que não têm a menor credibilidade. No início da pandemia, na China, surgiram fake news, vídeos, fotos e posts, sobre o efeito da doença, inclusive com números que estimavam em 500% a mais sobre o número real de infetados e vítimas fatais. Este cenário afetou e afeta o comportamento e a reação das pessoas, vítimas da desinformação e dos boatos. Devemos aceder à informação de forma a estarmos informados e formados, porém seguindo canais, sites e páginas fidedignas, fiéis e com credibilidade, para minimizar os nossos níveis de stress e melhorar os de confiança e positivismo. A melhor forma de informação é a verdade.

Como está sendo a adaptação das famílias e profissionais em relação ao Ensino À Distância? Quais os impactos dessa adaptação no pós pandemia?

P.V. - O Ensino À Distância é outra consequência deste problema, mas as crianças têm a capacidade de se adaptar às circunstâncias atuais e ao contexto em que atualmente vivemos. Readaptam-se às situações, criando muitas vezes movimentos que se tornarão eternos. Não nos esqueçamos que foram crianças na Itália que imortalizaram a frase "com o árco iris vai ficar tudo bem" que corre o mundo. No que ao ensino propriamente diz respeito, temos professores cada vez mais preparados e capazes de dar voz ao ensino, motivando as crianças a aprender, com estratégias e técnicas das mais variadas formas e contextos. Parabéns a eles pela valentia com que têm ajudado a enfrentar esta guerra silenciosa.

As viagens de férias deverão ser repensadas - Foto Chris Brignola/ Unsplash

Quais serão os novos hábitos das pessoas em relação às viagens, na questão de transportes públicos e hospedagens?

P.V. - As consequências serão muito mais sérias, sendo para as viagens de férias, por exemplo, pois o medo tomará conta das pessoas e a incerteza do futuro será uma realidade com a qual todos teremos de conviver. Neste ano, as pessoas terão de repensar as suas férias e de que forma pretendem gozá-las. O hotel e o drink darão lugar à máscara e ao uso descartável da vida social, como aconteceu nestes dois meses. A forma mais fácil de conviver com isso chama-se resiliência, resistência e tolerância. Os efeitos desta crise nas agências de viagens e na hotelaria serão uma realidade, infelizmente anunciada com danos irreversíveis. No caso de Portugal é o motor da economia, sendo responsável por cerca de 51,5% das exportações de serviços, tendo a receita deste setor contribuído com 8,2% para o PIB. 

Quais os impactos da suspensão temporária do contrato de trabalho na vida das pessoas? Como é que o home-office altera o cotidiano? 

P.V. - Nunca se falou tanto em lay off (período de inatividade, ou suspensão temporária de um contrato de trabalho) como agora. Porém, estar em lay off garante a manutenção do posto de trabalho, a saúde mental do trabalhador, e no caso da pandemia, e o isolamento o que reduz o número de casos, já que o trabalhador permanece em casa. A questão aqui centra-se na automação e alteração do ritmo da vida. Estávamos habituados ao dia matemático, somando horas aos dias e dias aos meses, aguardando pelo final do ano para fazer o balanço do que não fizemos e deveríamos ter feito, e do que fizemos e deveríamos ter evitado. Hoje vive-se cada segundo na certeza, já que o próximo será diferente do anterior, pois mesmo quem costuma se programar não sabe o que o reserva.

Até em restaurantes a aglomeração de pessoas merecerá maior cuidado  - Foto Shitota Yuri/ Unsplash

A aglomeração de pessoas será restringida e evitada por um período indeterminado pela maioria das pessoas, evitando o contágio. Qual o impacto social e no sentimento das pessoas em relação ao consumo de alimentos e bebidas em bares e restaurantes;  e nas lojas com a prova das roupas em cabines?

P.V - Este assunto passará por um período de adaptação, e como os outros, será comedido, tendo em conta as regras do isolamento social e das restrições que nos serão impostas. Caberá à consciência de cada um tomar dar um passo de cada vez, na certeza de que o mundo será o que quisermos que seja. O convívio, reuniões sociais e jantares de grupo terão se ser reprogramados e adequados até que haja uma vacina ou um tratamento eficaz. As provas de roupa deverão reunir como todas as situações, medidas especiais, como aliás, já têm sido tomadas. A natureza está nos colocando à prova todos os dias. Como dizia Aristóteles: "A natureza não faz nada em vão". Talvez depois disto repensemos a forma de olhar a natureza e um simples gesto de ver e sentir o vento, as cores e o cheiro do amanhecer.

As crianças devem se adaptar ao isolamento e ao ensino à distância - Foto Kelly Sikema/ Unsplash

Como manter a sanidade, e controlar ansiedade e medo, em tempos de pandemia? Como ter e manter um estilo de vida saudável e equilibrado no período pós-pandemia?

P.V. - A única forma de controlar o medo, é estarmos devidamente informados para saber como agir em tempos especiais como estes. Portugal tem sido exemplo para alguns países da Europa e até fora do Velho Continente, pois mesmo antes do estado de emergência ter sido decretado, o povo já estava confinado e mantido em casa, seguindo as normas da DGS e do Ministério da Saúde. Exercício físico regular em casa, aliado a uma alimentação saudável são fatores importantes para manter o equilíbrio emocional, físico e biológico.

Quais são as recomendações que considera essenciais para as pessoas que estão vivendo isolamento social e ansiosas com esta situação? O que a História e o comportamento humano nos ensinam sobre o presente?

P.V. - A resiliência é a capacidade que o indivíduo tem em lidar com problemas, adaptar-se às mudanças, superar os obstáculos e resistir à pressão social, ao stress e ao isolamento a que estivemos e estamos sujeitos. É importante mantermo-nos ocupados todos os dias, criando estratégias para evitar os sintomas da ansiedade e do confinamento. É por isso fundamental manter rotinas diárias nas refeições, nas atividades letivas e/ou profissionais e até mesmo nas de lazer. Mantenha-se ativo. Só se morre uma vez, mas vivemos todos os dias.

 

Pedro Vaz é Psicólogo Clinico da rede Hospitalar Hospital da Luz (Luz Saúde) desempenhando funções nos hospitais da Arrábida, Póvoa de Varzim e Vila Real e nas Clinicas do Porto, Amarante e Vila Nova de Cerveira. É especialista em Psicologia Clínica e da Saúde pelo colégio da especialidade da Ordem dos Psicólogos Portugueses e especialista avançado em Neuropsicologia pelo mesmo colégio.


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